1. EDITORIAL 6.2.13

"BASTA!"
 Carlos Jos Marques, diretor editorial

Nos EUA da dcada de 90 o ento prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, resolveu implantar um modelo de gesto batizado de Zero Tolerance. Na prtica, a tolerncia zero era uma poltica de segurana pblica que previa a represso rigorosa a qualquer tipo de delito, mesmo os mais corriqueiros, como forma de garantir um padro mnimo de civilidade e evitar a escalada de transgresses que leva s grandes rupturas e tragdias sociais. Deu certo e a cidade converteu-se em referncia, citada mundo afora, por punir com altas multas e detenes at os indivduos que cometem pequenos erros, como jogar um papel na rua. Hoje, quase duas dcadas depois,  desanimador constatar que em pases como o Brasil ainda vigora a lei do jeitinho, a noo perigosa de que transgredir  normal,  vantajoso, lucrativo e sem risco. Aqui, lamentavelmente, na contramo de naes que almejam o desenvolvimento, ainda ganha fora a prtica das mazelas cotidianas  do fiscal recebendo propina para fechar os olhos a irregularidades ao cidado que deixa de cumprir regras porque sabe que no ser punido; do prefeito que lava as mos fingindo no ser com ele ao bombeiro que considera passvel de funcionar o estabelecimento sem sinalizao adequada e extintores em ordem. Uma conjuno diablica e criminosa dessas mazelas levou ao episdio de Santa Maria, ceifando a vida de centenas de jovens e espalhando dor e comoo sem fim. Como aceitar? Santa Maria, pela dimenso do desastre,  um alerta dramtico de que chegamos ao limite, atravessando qualquer fronteira do razovel. O Pas no pode mais viver sob o signo da lenincia com infraes, da impunidade, das concesses de toda ordem  grandes ou pequenas , da imprudncia e do descaso com o ser humano. No  normal assistir diariamente  banalizao da morte,  irresponsabilidade das autoridades, ao ambiente permissivo que abre margens a podres negociatas, rapinagens polticas, jogos de interesse, acertos e subornos grotescos, promovidos, inclusive, pela burocracia do Estado. No  natural observar a deteriorao acelerada da segurana em nosso pas. Nem  suportvel seguir nessa marcha da insensatez que deixa refns cidades inteiras, amordaa os injustiados, projeta a bandidagem e vitima inclusive policiais encarregados de zelar pela segurana com a qual tanto sonhamos e pela qual clamamos.
 
A sociedade  governo, parlamentares e cidados comuns  deve se mover para dar um basta a esse estado de letargia, de apatia diante da avalanche de violaes ao senso comum do que  certo ou errado.  preciso promover urgentemente um novo ordenamento institucional, uma tolerncia zero aos malfeitos. Estabelecer um marco civilizatrio capaz de exprimir as aspiraes e as necessidades reais da Nao. Com essa linha condutora de comportamento quem sabe, l na frente, seja possvel saciar a sede por justia. Medidas severas contra condutores de veculos flagrados embriagados e o julgamento e condenao dos autores do mensalo so exemplos promissores no caminho a seguir. Apesar desses pequenos avanos, a Justia no Brasil ainda  percebida como um valor relativo, dado o afrouxamento com que as leis so praticadas por quem de dever e em virtude da facilidade com que o poder poltico e o do dinheiro trafegam para dobr-las. Em nome daqueles jovens e de seus sonhos interrompidos, e de tantas famlias que perderam os entes queridos,  preciso mudar esse estado de coisas. No rastro dos acontecimentos que marcaram Santa Maria surge o mpeto natural por respostas satisfatrias, providncias contra a negligncia, rgidas apuraes e reviso da matriz de estabelecimentos que funcionam nos mesmos moldes da boate Kiss, palco da tragdia. Que no seja uma onda transitria. A reportagem especial da Revista ISTO nesta edio ( pg. 48) traz um levantamento nacional mostrando que ao menos 70% dessas casas pelo Brasil apresentam algum tipo de infrao ou irregularidade s normas vigentes e converteram-se em verdadeiros alapes da morte. Dentro do prisma da tolerncia zero, deveriam fechar suas portas ou se adequarem o quanto antes para continuar funcionando. O comportamento de uma sociedade comea a se transformar quando ela percebe que  seu direito inalienvel exigir um compromisso democrtico das autoridades com o cumprimento da justia, sem distines, pela to propalada felicidade geral da Nao  que no deve ser apenas uma frmula retrica, mas o que nos move.

